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segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Ainda em Ruínas

Eu não estive no evento Multimídia em Ruínas, projeto viabilizado pelo programa VAI, do qual esse coletivo participou e com o qual colaborou, no último domingo.
Contudo, sei que se considerarmos apenas as duas imagens belíssimas em sépia, postadas ontem por Francisco, e o clima que também o seu texto sugeriu do que rolou por ali, podemos saber, desde já, que o evento foi um sucesso.

Para que continuemos em torno do tema da Ruína, vou compartilhar por aqui esse poema de Machado de Assis.
Todo mundo diz e sabe que o grande escritor brasileiro era melhor prosador que poeta, mas isso não é motivo para desprezarmos sua obra em versos.

Nesse poema, temos um movimento bem interessante das personagens: uma jovem entra nas ruínas conduzida por um poeta e, ao amanhecer, temos, saindo das mesmas ruínas, apenas o poeta e a sua saudade!
Apesar de um tanto melancólico, acho que é um poema que tem um ar de coisa antiga, sobretudo, pela linguagem um tanto rebuscada de Machado-poeta, mas mesmo isso combina com o tema da Ruína em si, não é mesmo? rsrsrs
Eu também acho que ele combina com o que possivelmente ocorreu nesse evento, em que não estive, e que, apesar disso, sei (pelo tanto que conheço das pessoas que formam esse coletivo) deve ter sido o casamento da ruína com a própria poesia.
Tudo isso certamente é um convite à contemplação da beleza.

Ruínas

Cobrem plantas sem flor crestados muros;
Range a porta anciã; o chão de pedra
Gemer parece aos pés do inquieto vate.
Ruína é tudo: a casa, a escada, o horto,
Sítios caros da infância.
                              Austera moça
Junto ao velho portão o vate aguarda;
          Pendem-lhe as tranças soltas
          Por sobre as roxas vestes.
Risos não tem, e em seu magoado gesto
Transluz não sei que dor oculta aos olhos;
— Dor que à face não vem, — medrosa e casta,
Íntima e funda; — e dos cerrados cílios
                     Se uma discreta muda
Lágrima cai, não murcha a flor do rosto;
Melancolia tácita e serena,
Que os ecos não acorda em seus queixumes,
Respira aquele rosto. A mão lhe estende
O abatido poeta. Ei-los percorrem
Com tardo passo os relembrados sítios,
Ermos depois que a mão da fria morte
Tantas almas colhera. Desmaiavam,
                     Nos serros do poente,
                     As rosas do crepúsculo.
“Quem és? pergunta o vate; o sol que foge
No teu lânguido olhar um raio deixa;
— Raio quebrado e frio; — o vento agita
Tímido e frouxo as tuas longas tranças.
Conhecem-te estas pedras; das ruínas
Alma errante pareces condenada
A contemplar teus insepultos ossos.
Conhecem-te estas árvores. E eu mesmo
Sinto não sei que vaga e amortecida
                     Lembrança de teu rosto.”

                     Desceu de todo a noite,
Pelo espaço arrastando o manto escuro
Que a loura Vésper nos seus ombros castos,
Como um diamante, prende. Longas horas
Silenciosas correram. No outro dia,
Quando as vermelhas rosas do oriente
Ao já próximo sol a estrada ornavam
Das ruínas saíam lentamente
                     Duas pálidas sombras:
                     O poeta e a saudade.

Machado de Assis, in 'Falenas'

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O jovem Poe

Na semana passada, eu falava, no meu blog, de um pesadelo que tive e que muito me assustou, mas que também muito me ensinou. No facebook, ao ler minha postagem, um amigo chegou a citar um personagem de um autor de romances e contos de terror, o H.P. Lovecraft. No entanto, eu não curto terror, mesmo os contos de Edgar Allan Poe, quando são muito assustadores, eu tenho dificuldade em acompanhar. rsrsrs
Pois bem, curiosamente, eu dizia isso para esse meu amigo, citando Poe, na semana passada, e dizendo-lhe também que eu gostava mais do poeta Poe do que do contista (e que nenhum crítico de literatura me ouça! rsrsrs)
Agora, começo a ler um livro em que Edgar Allan Poe é um personagem da história contada ali e que é um thriller. De thrilers e histórias de detetive eu gosto, sempre.
Aliás, ouvi dizer que elas, as histórias policiais, têm um efeito terapêutico para pessoas que perderam tudo. Muitos desempregados, por exemplo, leem romances policiais: as pistas para desvendar o “crime” funcionam como um elemento de busca da própria identidade e condição social perdidas.
O livro que estou lendo é de um autor norte-americano chamado Louis Bayard. Ele vive em Washington e escreve para o New York Times e o Washington Post. E para os sistes Nerve.com e Salon.com, entre outros.

Nessa história que estou lendo, tudo é bastante instigante, pois Poe é um jovem cadete de uma  tradicional Academia Militar dos EUA, onde ocorreu um crime: um outro cadete, que aparentemente se suicidara, é encontrado morto e, logo depois, seu corpo é profanado: retiram-lhe o coração. Um policial aposentado é escolhido para levar à frente as investigações e escolhe Poe como seu ajudante.  Uma das passagens mais bonitas é quando Poe se apaixona por uma jovem, irmã de um dos suspeitos do crime.
Embora, quando contado assim, tudo pareça muito com coisa de adolescente (o que de fato o personagem praticamente é), na verdade, a história é séria e pode nos levar a muitas reflexões, experiência que eu vivi ao ler esse trecho e que acho magnífico:


(...) Miss Marquis ouvia tudo, o bom e o mau, com uma equanimidade quase sacerdotal. Em sua pessoa encontrei personificado o princípio especificado por Terence: Homo sum, humani nil a me alienum puto. De fato, seu espírito de indulgência encorajou-me tanto que, depois de muito pouco tempo, me senti livre para confessar que minha mãe vem mantendo uma espécie de presença supranatural quando estou dormindo e acordado.Nenhuma memória vivente ela me legou em herança, confessei, e, no entanto, ela persiste com tenacidade como memória-espírito.
Ao ouvir isso, miss Marquis olhou para mim com grande prontidão.
“Você quer dizer que ela fala com você? O que ela diz?”
Pela primeira vez naquela manhã, tornei-me reticente. Por mais que ansiasse por contar-lhe, mr. Landor, sobre aquele misterioso fragmento poético, eu não pude. Nem parecia, de modo algum, que ela fosse pedir uma elaboração adicional. Depois de colocar a pergunta, ela a abandonou muito rapidamente e concluiu murmurando: Eles nunca nos deixam, não? Aqueles que vieram antes de nós. Eu gostaria de saber por quê”.
Vacilando, então, falei das teorias que havia proposto para essa mesma questão. “Há momentos”, declarei, “em que creio que os mortos nos assombram porque os amamos muito pouco. Nós os esquecemos, percebe?, não por querer, mas assim fazemos. Toda a nossa tristeza e compaixão dura por um tempo, e no intervalo, por mais longo que dure, creio que eles se sentem cruelmente abandonados. E por isso clamam por nós. Eles desejam ser lembrados em nossos corações. De modo a não serem assassinados duas vezes.”
“Em outros momentos”, continuei, “acho que os amamos demasiado. E como conseqüência nunca ficam livres para partir, porque nós os carregamos, nossos mais profundamente amados, dentro de nós. Nunca mortos, nunca silenciosos, nunca apaziguados.”
Aparições”, disse ela me olhando de perto.
“Sim, suponho que sim. Mas como se pode dizer que retornaram quando nunca foram embora?”
Ela passou a mão em sua boca – cujo propósito, só pude determinar quando ouvi o arroto de alegria ruidosa transbordando de seus lábios.
“Por que é, mister Poe, que eu passaria, numa próxima ocasião, uma hora com você em” – de novo ela gargalhou – “em reflexões das mais melancólicas e não gastaria um outro minuto falando de trajes e bugigangas e das coisas que tornam as pessoas felizes?”
Um brilho solitário iluminava a base da montanha que fitávamos. Miss Marquis, contudo, voltou sua atenção para outro lado e, com a ajuda de um galho não pontudo, começou ociosamente a desenhar figuras abstratas na borda do granito.
“No outro dia”, ela disse por fim. “No cemitério...” [o primeiro encontro deles fora num cemitério e ela passou mal, chegando a desmaiar.]
“Não precisamos falar disso, miss Marquis.”
“Mas sabe, eu quero falar disso. Que lhe contar...”
“Sim?”
“Quão grata fiquei. Abrir meus olhos, é sério, e encontrar você ali.” Ela arriscou um olhar em minha direção, depois deixou escapar de uma vez. “Olhei profundamente em seu rosto, mister Poe, e encontrei ali algo que jamais havia esperado. Nem em mil anos.”
“O que você encontrou, miss Marquis?”
“Amor”,  ela disse.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Deixe-se arrebatar por essa nave!

Gostaria de falar de uma experiência que já se tornou inesquecível para mim.
Para ser sincero eu também vivi isso outras vezes ao visitar uma instalação de arte. Por exemplo, quando, ainda adolescente, fui com professores e coleguinhas de escola visitar uma Bienal, lá no Ibirapuera. Na época, uma artista argentina apresentava uma instalação em que os visitantes deviam tirar os sapatos, calçar pantufas apropriadas, acolchoadas com algodão, e entrar em uma imensa tenda, em cujo teto havia diversos tecidos brancos, de materiais como algodão, seda, transparência inúmeras, todos intercalados com espaços em que se via um fundo dark. O visitante devia entrar segurando um espelho na altura do olho, acima do nariz, e andar cuidadosamente olhando para as imagens que se refletiam em tal espelho, no interior, portanto, de uma Nuvem, como era chamada essa instalação. Assim, por vezes sentíamos que andávamos mesmo em uma nuvem, noutras que caíamos em um abismo de escuridão... Pena que não me lembro do nome da artista, nem ao certo em qual Bienal isso se deu. O que ficou foi o inesquecível de relação com a arte a partir de algo muito simples no aparato disponível, mas que proporcionou uma experiência de transcendência muito significativa, ainda mais para um adolescente.
Agora, na meia idade da vida, passei por algo semelhante: fui visitar a exposição Oneness, de Mariko Mori, uma artista japonesa que consegue reunir tecnologia eletrônica, religião e até mesmo a estética da fotografia de moda, tornando tudo isso pleno de sentido no seu trabalho. Fica evidente a influência dos mangás, por exemplo, nesse trabalho, sobretudo nos vídeos em que ela aparece vestida como os personagens típicos dessas histórias em quadrinhos. No entanto, o que mais me chamou a atenção foi o seu desejo sincero de proporcionar aos visitantes um contato com a energia cósmica universal, o que só se faz possível quando você relaxa e se concentra em vibrar nessa direção.

Nesse sentido, aconteceu algo muito bacana na minha visita à exposição. Quando eu cheguei, peguei a senha para entrar na Wave UFO, gigantesca nave que está estacionada no saguão da casa, mas naquele momento a porta da nave estava enguiçada. E, ainda, as outras duas pessoas que entrariam comigo desistiram de esperar o seu conserto. Eu mantive-me firme no propósito de entrar ali e esperei. Assim, pude ter uma experiência única: pude observar no teto da nave apenas as cores do meu estado emocional registradas pela leitura de eletrodos fixados na minha testa e que permitiam a projeção de tais imagens no teto da nave.
Além disso, quando fui conhecer os seis personagens da obra Oneness, que dá nome à exposição e é outra obra interativa, como eu fora visitar a exposição sozinho, precisei juntar um grupo de mais cinco pessoas, para que os seis pudessem se ajoelhar em frente a cada um dos também seis personagens que compõem a obra, e colocando as mãos no coração de cada um deles, tivessem a surpresa da interação que os bonecos com carinha de ETs, moldados em Technogel, proporcionam em grupo ao grupo.


Eu concluo que vivi uma experiência muito salutar para o espírito, pois pude conhecer uma obra que reúne beleza, oportunidade de reflexão sem par, além da necessária lição de que é possível utilizar a tecnologia também a favor da nossa própria espiritualidade! Enjoy it!

A exposição ficará em cartaz até 16 de outubro no CCBB – Rua Álvares Penteado, 112 – Centro.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Sempre é temporada de caça às princesas

Como é bom terminar o domingo com um programa solitário, mas que preenche nosso tempo e nossa alma. Foi a isso que conheci, quando me permiti assistir a um clássico da comédia romântica de todos os tempos: A princesa e o plebeu (Roman Holiday), de William Wyler.
Agora que o filme terminou, fiquei pensando em alguns aspectos desse tipo de obra cinematográfica e particularmente desse filme, que muitos dos meus amigos já viram e tanto insistiam para que eu também conhecesse.
Como é bonito ver a simplicidade de uma comédia romântica à moda americana e desse período.
Há uma passagem em que o plebeu da história está dizendo para a princesa, após ser perguntado, no seu modesto quarto, se ele não se cansava de sempre comer fora (ele não tinha cozinha). Ele responde: A vida não é sempre como a gente quer. E ela, princesa, também cansada de ser alteza, é obrigada a concordar.
O filme por aqueles desenvolvimentos previsíveis de roteiro, comprova uma verdade provavelmente absoluta: Sempre que mentimos para os outros é a nós mesmos que estamos enganando.
Muito delicadamente (afinal é uma comédia e não um drama) teremos a cena da despedida, quando a princesa diz: Tenho que deixá-lo agora. E ainda: Deixe-me como eu vou deixá-lo. Ou ainda: Eu não sei dizer adeus. Não consigo encontrar as palavras. E o plebeu solícito: Não precisa tentar...
Afinal, não é isso o que temos todos que aprender, simplesmente? Deixar o outro partir, se necessário? Não dizer o adeus, mas já se despedindo?
Por fim, em uma comédia romântica hollywoodiana o casal idealizado é sempre, sempre belíssimo, of course.
Como não admirar esses espécimes humanos? Gregory Peck e Audrey Hepburn! Fico imaginando se isso não pode, também simplesmente, apenas significar uma sinalização da perfeição do amor. Assim sendo, um amor como esse permite que, na cena final, aprendamos juntamente com a princesa, que a verdade pode ser dita sempre e, em público, mesmo que poucos entendam-na como verdade.
Ainda mais? Sim é possível aprender ainda mais: Que não há traição possível quando o amor é verdadeiro, mesmo que ele pareça um amor impossível! E, vamos combinar: qual é o amor que não tem essa aparência?


segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Pardon me!

Children Dancing at a Party (Pardon Me), 1918, oil on canvas.
Norman Rockwell 
Ontem, alguém me dizia que culpa é diferente de sentimento de culpa, assim como promessa é diferente de compromisso!
Segundo esse amigo, a culpa é aquilo de que te acusam, e, então, é mesmo necessário todo o aparato daquela área do conhecimento que aprendemos a chamar de Direito para lidarmos de fato com uma culpa. Ou seja, se te acusam culpado, haverá um advogado de acusação e você pode ter um advogado de defesa, para defendê-lo da culpa que te imputam e assim, quiçá, poderá ainda provar sua inocência. É claro que se você, de fato, cometeu determinada falta poderá ser provada sua culpa. Mas a culpa continuará sempre sendo aquilo que lhe imputaram, algo que veio de fora. Somos culpados de crimes que, por um consenso e por vivermos em uma sociedade, de determinada época, chamamos de crime. E, certo, está tudo bem que seja assim, ao menos por um tempo: o da condenação penal.
Já o sentimento de culpa é matéria de foro íntimo. Eu crio o meu sentimento de culpa.  Tanto é assim, que posso me preocupar com o que o outro está sentindo em relação à determinada atitude que julgo injusta e que tomei no trato com ele. Muitas vezes, mesmo pedindo perdão por uma falta, e ainda mais se o outro não me perdoa, continuo me sentindo culpado. Isso não deveria acontecer (na ausência do sentimento de culpa de fato não acontece), afinal o problema é de quem não me perdoou. Há casos bizarros de pessoas perdoadas pelo ofendido e que continuam se sentindo culpadas.
Outra coisa interessante, e que esse meu amigo também me disse, foi acerca da promessa. Fazê-la é simplesmente pedir para ter problema com o outro: não prometa nada a ninguém. Você será cobrado, necessariamente, portanto, não deveria ter prometido, sobretudo se não desejava cumprir a promessa. O descumprimento da promessa, o que quase sempre acontece, é já o início de um processo de sentimento de culpa, nesse caso absolutamente desnecessário, pois bastaria simplesmente não prometer jamais.
E por fim, há o compromisso. Trata-se aqui de uma sutil nuance e naquilo que o diferencia da atitude precedente. Mas, que coloca novamente o que é de foro íntimo em circulação, agora, porém, em sua faceta positiva. Se você quer assumir um compromisso, isso não será mais uma promessa, mas o seu próprio desejo em movimento. Não deveríamos deixar de considerar um compromisso, pois quando nos comprometemos já não prometemos apenas, somos a promessa antecipada e que se nota por essa nossa atitude e ação. Por meio dessa atitude só poderia resultar algo que chamaríamos de "culpa", se ela não fosse um compromisso com o bem comum.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Migalhas de Machado de Assis

Quando eu tinha quinze anos comecei a ler Machado de Assis. Penso que passei os quatro anos seguintes lendo o autor que, portanto, fez parte da minha formação na adolescência. Não acho que tinha maturidade, então, para entender todas as suas finas ironias. Mas como aprendi com o bruxo! Até hoje, sinto que devo a ele tudo o que sei do português, essa língua na qual devemos nos expressar bem, se quisermos nos fazer entendidos.
Depois, voltei ao Machado no curso de Letras. Tive dois semestres na graduação dedicados a sua obra: quando reli seus principais romances, contos.
Agora, tenho tido vontade de reler Machado o que não me dirão seus livros nessa minha meia idade?!
Antes, porém, de voltar às obras, vou reaproximar-me, por meio dessas Migalhas de Machado de Assis, que é como foi chamado esse livrinho e que ganhei de uma amiga em um dos meus aniversários.

Hoje, o peguei na estante e lendo algumas dessas migalhas, lembrei-me de Laudecir, um colaborador desse blog e amigo querido desse Coletivo. Laudecir, acho que você e Machado têm muito em comum.
Veja lá essas máximas, e responda-nos se não são hilárias e também coisas com as quais você concorda ou que você mesmo poderia ter dito:

Aos quinze anos há até certa graça em ameaçar muito e não executar nada.


Nem tudo é ótimo nesse mundo.


As pessoas valem o que vale a afeição da gente, e é daí que mestre Povo tirou aquele adágio que quem o feio ama bonito lhe parece.


A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí só insânia, insânia e só insânia.


Não era verdade, mas nem só a verdade se deve dizer às mães.


Não é a ocasião que faz o ladrão; o provérbio está errado. A forma exata deve ser essa: A ocasião faz o furto, o ladrão nasce feito.


No trabalho é que se conhece o trabalhador.


Também não bastam esperanças, a realidade é sempre urgente.


As boas ações que praticamos não passam da nossa rua, mas as más ações que nos atribuem vão de um extremo a outro da nossa cidade.


Se és feliz escreve; se és infeliz, escreve também.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Cortesia: lição de vida


Eu estava hoje pensando no que eu postaria como mensagem de final de julho no meu blog e, ainda, como mensagem de início de agosto nesse blog do Coletivo Cultural Pegando o Gancho. Aos domingos (e também às segundas-feiras), tenho vontade de falar para todos alguma mensagem sincera, que venha do fundo do meu coração.
Assim sendo, fiquei com vontade de dizer que eu acredito (do mesmo modo que acredito em Deus) que a lição maior que podíamos dar ao mundo seria a de sermos cordatos com todos, in-dis-tin-ta-men-te: com o rico e com o pobre, com os poderosos do mundo e também com os que nele são humilhados, com nossos amigos e inimigos.
Se tal atitude for mesmo aquela do fundo do coração, abarcando assim a virtude da profunda sinceridade, poderíamos ainda, ao fim dessa vida, dizer o mesmo que sugere o poeta Manuel Bandeira no seu poema e, tão somente, por que afinal já teríamos exercitado muito essa atitude:

CONSOADA

Quando a indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Temos que nos manter firmes!

Eu não tenho dúvida alguma: você pode mudar qualquer contexto com a sua atitude.Se tivermos uma reação violenta a uma violência, teremos duas pessoas se socando... E assim, por diante. Na semana passada, uma amiga fez uma comemoração, porque ela tinha conseguido ingressar no mestrado em uma importante universidade. O ambiente escolhido para o evento foi um bar, na saída da própria universidade... Eu fui até o local e vi que todos estavam contentes, felizes mesmo! Que beleza!
No entanto, uma moça, em um determinado momento, começou a se queixar de umas pessoas suspeitas que se encontravam do outro lado da calçada [estávamos em uma mesa na calçada]. Poderiam ser ladrões etc. e tal... Eu, imediatamente, falei: Nem pense nisso, nada de mal irá nos acontecer. Portanto, isso não procede, não há motivo para temor! Ela, muito simpática, disse que eu tinha razão. Pois bem, se eram uma súcia nunca ficamos sabendo. kkkkk
Eu acredito muito nisso: no pensamento positivo, na positive vibration.
Há algum tempo, conheci esse clip abaixo, da banda Badly Drawn Boy, que, com outras palavras, está também falando disso tudo que eu disse aqui.
Vou reproduzir a letra da canção e uma tradução livre que fiz! [caso alguém quiser fazer alguma correção fique livre para isso!]
O mais bacana contudo é esse fofo da animação.
Enjoy it!

Year Of The Rat
(One, one, one, one, one, one. One, one, one, one, one, one)

June is on the run for so long
Pushed and pulled then shunned
It was so wrong
These fours walls crashing in won't stop me now
Cause I'm alive, I'm out tonight, all night

Everybody needs to know it's the year of the rat
Every day we've got to hold on
'cause if we hold on we could find some new energy

Streets with flags unfurled like treasure
Thank me for my words, it's a pleasure
Just don't ask me to stay 'cause I'll be gone
But it's alright I'm OK - always

Everybody needs to know it's the year of the rat
Every day we've got to hold on
'cause if we hold on we could find some new energy

One plus one is one - together
One plus one is one - forever
One plus one is one - together
One plus one is one - forever

Everybody needs to know it's the year of the rat
Everybody needs to know it's the year of the rat
Everybody needs to know it's the year of the rat
Everybody needs to know it's the year of the rat
Every day we've got to hold on
'cause if we hold on we could find some new energy


"One plus one plus one plus one is four"

"One"
"Plus one"
"Plus one"
"Plus one"
"Four"

Ano do Rato
(Um, um, um, um, um, um. Um, um, um, um, um, um)

Junho está demorando para acabar
Jogado de um lado para o outro, preferi me afastar
Isso estava tão errado...
Mesmo que essas quatro paredes desabem, não é isso que vai me parar agora
Porque eu estou vivo,  e estarei fora a noite toda.

Todo mundo precisa saber que é o ano do rato
Todos os dias temos que nos manter firmes
Porque se nós persistirmos podemos encontrar um pouco de energia nova

Ruas com bandeiras desfraldadas como um tesouro
Agradeça-me por minhas palavras, é um prazer
 não me peça para ficar, porque eu vou embora
Mas tudo bem, eu estou bem - sempre

Todo mundo precisa saber que é o ano do
 rato
Todos os dias temos que nos manter firmes
Porque se nós persistirmos podemos encontrar um pouco de energia nova


Um mais um é um conjunto
Um mais um é um infinito
Um mais um é um conjunto
Um mais um é um infinito

Todo mundo precisa saber que é o ano do rato
Todo mundo precisa saber que é o ano do rato
Todo mundo precisa saber que é o ano do rato
Todo mundo precisa saber que é o ano do rato
Todos os dias temos que nos manter firmes
Porque se nós persistirmos podemos encontrar um pouco de energia nova

"Um mais um mais um mais um são quatro"

"Um"
"mais um "
"mais um "
"mais um "
"Quatro"


segunda-feira, 11 de julho de 2011

Dez motivos para querermos ver o filme Meia-noite em Paris de Woody Allen


 1. Nesse filme é possível entender Paris como a sala de visitas da humanidade. Ela não é apenas bela naquilo que lhe garante ser um cartão-postal. Ela é uma pintura viva, onde a vida pulsa e, muito especialmente, pelo menos desde o final do XIX (Belle Époque).
 2. O filme é também uma história de amor. É tão romântico como costumam ser os filmes americanos que se passam em Paris, ao menos a partir de uma tradição que ocorre desde musicais como Sinfonia em Paris, de Vincente Minnelli. No entanto, esse é mais denso e, em resumo, nos ensina que não devemos nos enganar no amor, por exemplo, você não deve se casar devido às circunstâncias fortuitas (como dinheiro, estabilidade, hábito etc.)
  3. É uma homenagem sincera a todos os grandes gênios no mundo das artes que circularam pela Paris da década de 20 do século passado (e que gravitavam em torno da figura de Gertrude Stein). Homenagem a essa época de ouro e àquela que a precedeu, ou seja, também à Belle Époque. Isso tudo na mesma cidade, que nos legou seus grandes artistas. Apesar de tais homenagens, fica-nos, contudo, a sábia lição: É ilusão querer viver da nostalgia de um passado de glória, em qualquer circunstância e lugar.
4. O personagem central é um homem doce e sincero. Possui as qualidades necessárias a todo homem de bem. É também um idealista. E nosso cinema contemporâneo carece de personagens assim, que ainda conseguem nos alertar para a beleza e o amor! Owen Wilson, nesse papel, lembrou-me o que Caetano dizia de Giulietta Masina como Cabíria: “aquela cara é o coração de Jesus”.

5. A personagem feminina e que encarna a protagonista da história, a mocinha do casal romântico, é também doce, mas daquela doçura que encanta nas mulheres: etérea e vaporosa. Aliás, Marion Cotillard é perfeita para o papel.
6. O diretor do filme, Woody Allen, demonstra que está envelhecendo bem, o que vale dizer está atingindo um altíssimo grau de sabedoria. Suas últimas produções, aliás, espelham exatamente esse apogeu e esplendor.
7. A trilha sonora do filme resgata a época que o protagonista revisita em seus passeios noturnos por Paris. Cole Porter é a estrela sonora do filme. Nesse sentido, o filme resgata algo que Allen já fizera no filme A Era do Rádio: a qualidade da pesquisa.
8. As cenas em que aparecem os personagens do escritor Ernest Hemingway e do pintor Salvador Dalí são mesmo impagáveis. Os atores encarnam as ilustres figuras sem necessidade de recorrer aos estereótipos e, assim, eles parecem ser gente como a gente, mesmo com suas excentricidades.
9. Ver Toulouse Lautrec no Moulin Rouge também é um momento absolutamente encantador.
    10. O filme tem uma mistura muito equilibrada de Bom Humor e Melancolia, e é assim que ele nos convida a entender que a vida é compreender que quem sai na chuva é para se molhar! Isso pode ser tomado tão somente como o exercício muito natural de quem vive mergulhado naquilo que os franceses chamam de joie de vivre. E, voilá, quando isso acontece em Paris, então, isso pode ser mesmo uma Festa!

Observação: Essa postagem foi publicada originalmente no meu blog pessoal ontem e, agora, também aqui! É que acho que vale a pena divulgar essa obra-prima em todos os canais. 

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Dormir, Sonhar.


O simbolismo, aprendemos na escola, é uma das escolas literárias mais difíceis de se estudar.
Eu diria que os poemas simbolistas estão para a história da literatura como o livro do Apocalipse, na Bíblia, está para a história das exegeses bíblicas. É sempre possível que cada qual os interprete como pode e a sua maneira.
Não é fácil realmente descobrir o sentido original que o poeta simbolista teria dado aos seus versos, na maioria dos casos.
Um dos poetas mais difíceis que nós temos na Literatura Brasileira, nesse sentido, ao menos eu penso assim, é Cruz e Souza. Contudo, ele é também um dos mais delicados e um dos poucos, em toda a nossa literatura, capaz de falar do amor em termos profundamente espirituais.
Vejam se podem concordar comigo, lendo esse poema que sugiro como leitura de reflexão para abrirmos a semana:

To sleep, to dream

Dormir, sonhar – o poeta inglês o disse...
Ah! Mas se a gente nunca mais sonhasse
Ah! Mas se a gente nunca mais dormisse
E a ilusões não mais acalentasse?

E o que importava que o futuro risse
De um visionário que tal cousa ideasse;
Se não seria o único que abrisse
Uma exceção da vida humana à face?...

Se os imortais filósofos modernos
Que derrubaram todos os infernos,
Que destruíram toda a teogonia.

Orientando a triste humanidade,
Deixaram, mais e mais, a piedade
Inteiramente desolada e fria?