segunda-feira, 27 de agosto de 2012


Pretos do Rosário: os negros que sabiam ser negros


O comentário de algumas Irmãs sobre a presença dos Pretos do Rosário e o uso dos serviços oferecidos pelo poder público à sociedade da época, na região onde está sua igreja na segunda metade do século XX, nos ajuda a entender porque o interesse em tirar e invisibilizá-los no Centro Velho da cidade.  Outro dado interessante nestes comentários é a descrição desta área, sua importância política e social, o que podemos perceber através da beleza do equipamento arquitetônico desta região ainda hoje, como por exemplo, as salas de cinema, os teatros e praças comprovam os relatos que veremos a seguir. D. Nilza, uma das irmãs mais antigas na Irmandade, nos diz que “não podíamos frequentar esta área”. Entrávamos na igreja e da igreja tínhamos que ir para casa. (...) Pois neste lugar tinha muito teatro, tínhamos ali o pessoal da polícia – a Força Pública na Rua Brigadeiro Tobias. Tinha o Circo Seico, no Anhangabaú, tinha o teatro da Bibi Ferreira. Então era uma coisa que nós não tínhamos acesso, nós não participávamos mesmo, porque inclusive na igreja era chamada atenção se nós fôssemos. Aos irmãos era proibido participar. Ás vezes agente ia, mas à noite, escondidinho. (...) E depois tinha que ir embora. Não podiam usufruir de nada que existia naquela região. Ainda sobre este assunto, Roseli afirma que “os irmãos não frequentavam este local quando ele era importante e imponente”. Só viam aqui quando iam à igreja. A relação que eles mantinham com este local era muito ruim. Era muito difícil; pois era uma relação de preconceito. Por isto é que os negros do rosário tiveram muita preocupação com a questão da aparência; com o fato de estarmos muito bem. Porque quando viam para cá não eram bem vistos. Por isto mesmo queriam tirar a igreja do rosário daqui desta região que era muito valorizada na ocasião. “Era muito difícil a relação dos negros do rosário com todo o resto de São Paulo”. No entanto, D. Cacilda nos diz que “os irmãos do rosário geralmente não freqüentava este local no tempo do seu auge cultural. Porque naquele tempo os negros eram mais empregados. Nunca deixamos de ser prestigiados pela elite. Pelo contrário, mesmo agente que trabalhava, quando diz que pertence à igreja do rosário, era sempre tratado de outra forma. Porque sabia que era negro social, mas era negro que tinha prestígio consigo próprio. Eram negros que sabiam ser negros”. “Eram negros que sabiam ser negros”. É frase como esta, ou mais que a frase, é pessoa como esta, que sabem ser negras/os que fortalecem a caminhada da Irmandade nestes 300 anos de existência no centro velho de São Paulo.

Um comentário:

  1. Querida Conceição!

    Registro valioso!
    É tao inadmissivel pensar que os negros eram banidos da vida cultural deste centro! A cultura brasileira é construida a partir de raizes negras africanas, como sabemos, no entanto, lamentável saber que as relações de classe se constituem elemento mais poderoso quando tratamos de oportunidades.

    Sorriso negro
    Abraço negro
    tras felicidade!

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