terça-feira, 16 de agosto de 2011

Das Migalhas de Machado de Assis às Migalhas de todos nós

Josafá lembrou de mim ao ler Migalhas de Machado de Assis. Não sei se entendi essa relação das máximas de Machado de Assis com as coisas que digo ou penso. De qualquer forma, lembrar de mim ao ler Machado, tá bom, vamos combinar?!
No primeiro momento, quando li as máximas de Machado achei engraçadas, confesso que me reconheço nelas, mas fiquei de certa forma numa postura interrogativa, querendo entender. Depois li o comentário do Chico, então me senti mais tranquilo, porque ele não falou de pessimismo em relação às máximas, Chico uso a palavra “realidade”. Gosto dessa palavra. Disse: "Também não bastam esperanças, a realidade é sempre urgente. E cá estamos nós saindo do Jardim das Esperanças e retomando a realidade urbana da convivência e da poesia ‘concreto’. Grande Machado!! Quem não acompanhou as postagens da semana anterior, certamente, não sabe do que estamos falando. É preciso acessar o blog, voltar às postagens, caso queira entender. Desculpe! Gostei muito dessa brincadeira com as palavras, que você, Chico, faz tão bem. Achei o máximo essa sacada ...saindo do Jardim das Esperanças e retomando a realidade... Valeu Chico! Valeu Josafá!

Quando comecei a pensar em minha postagem desta terça-feira havia decidido que falaria do Dia dos Pais, correndo o risco, é óbvio, de parecer piegas. É que essa data me faz retroceder no tempo e ter memórias difíceis de traduzir em palavras... Meu pai, Jonas José da Silva, era uma pessoa extremamente alegre, sorridente, divertidíssima, gostava de cantar, trabalhador. Acho que a palavra trabalhador é a que melhor traduz o que ele foi. Minha mãe deve ter se casado com ele, em parte, por conta disso. Ela sempre fez questão de ressaltar que meu pai “não rejeitava trabalho”, “podia ser trabalho duro”, “a qualquer hora”... É verdade! Eu pude ver e participar de tudo isso. E, por isso, dou testemunho: meu pai foi um homem muito trabalhador! Ainda o vejo capinando, sujo de terra, encharcado de suor...
Hoje, quando olho para meu pai, sentado em uma cadeira de rodas, falando tão pouco, bate uma tristeza no peito, uma série de interrogações me vem à cabeça. Trabalhou tanto para quê? Para quem? Com quem ficou o lucro do teu trabalho? O que restou? Migalhas? Cadê a justiça? Ética? Moral? Deus? Machado de Assis tinha razão quando disse: "Nem tudo é ótimo nesse mundo".

6 comentários:

  1. Não sei o que me diz esta foto...
    Talvez alegria...
    Talvez o registro de um instante indispensável... alegria?
    Pode ser a tatuagem de um encontro que se quer memorável... indispensável?
    Nada disso! pode dizer o autor, ironicamente, frente ao dicurso sobre REALIDADE...

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  2. Lindo isto:
    "É que essa data me faz retroceder no tempo e ter memórias difíceis de traduzir em palavras..."
    Nem sempre dizemos tudo em palavras ou, ao menos, verbos e verbetes não expressam tudo, caro Lau!
    Valeu!
    Chikito

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  3. Acreditei muito na família,desacreditei e voltei a acreditar,em especial em meu pai que revi em janeiro passado. Me pesa as mesmas dores que te interrogam, Lau. Num tempo onde a premissa "estado ótimo"vigora, Machado é precursor não cínico, de nos resgatar a falivelidade de muitas coisas, nas quais os homens por muito, e, por tanto, busca para escapar do que é VIVER, que não tem como Chico diz parelha em palavras.Abraço!

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  4. Laudecir,

    que postagem magnífica!
    Então, eu venho com as migalhas de Machado e você nos presenteia com essa riqueza de desdobramento do tema!
    Impressionante.
    Há algo lindo a que o final da sua postagem me remeteu. É ainda sobre Machado de Assis e eu preciso contar:

    Euclides da Cunha nos conta em uma crônica que ele foi visitar Machado no leito de morte. Ele ficou emocionado com a atitude do grande escritor na agonia:
    "Realmente, na fase aguda de sua moléstia, Machado de Assis, se por acaso traía com um gemido e uma contração mais viva o sofrimento, apressava-se em pedir desculpas aos que o assistiam, na ânsia e no apuro gentilíssimo de quem corrige um descuido ou involuntário deslize.
    Timbravam em sua primeira e última dissimulação: a dissimulação da própria agonia, para não nos magoar com o reflexo de sua dor. A sua infinita delicadeza de pensar, de sentir, e de agir, que no trato vulgar dos homens se exteriorizava em timidez embaraçadora e recatado retraimento, transfigurava-se em fortaleza tranqüila e soberana.
    E gentilissimamente bom durante a vida, ele se tornava gentilmente heróico na morte..."

    Seu pai querido, que foi tão trabalhador, hoje, nos presenteia com o sorriso contrito da sua atual condição e sabe-se amado por você e por todos que o rodeiam: isso é o mais importante, sem dúvida! ;-)

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  5. Lindo isso Lau. Sou testemunha do quanto você cuida hoje de seu pai. Com que delicadeza você cortou-lhe os cabelos, fez-lhe a barba. Você é FILHO e PAI, cuidador.
    e vou pegar seu gancho...

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  6. Grande descendência: A dignidade, o melhor do DNA!

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